A Retrospectiva Brasil é um relatório analítico independente publicado anualmente pela Transparência Internacional – Brasil desde 2020. Seu objetivo é reunir, contextualizar e analisar os fatos mais relevantes relacionados à corrupção, à integridade pública e à qualidade da democracia no país ao longo do ano anterior. A edição de 2025 foi publicada em fevereiro de 2026, coincidindo intencionalmente com o lançamento global do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pelo Secretariado da Transparência Internacional — sem que isso implique relação causal entre os dois documentos.
A publicação é estruturada a partir de uma análise qualitativa dos três Poderes da República, e complementada por seções de recomendações técnicas e institucionais, balanços de destaques positivos e negativos, e uma introdução que contextualiza os fenômenos centrais do período.
O cenário de 2025
O relatório identifica 2025 como um ano marcado pela visibilidade inédita da infiltração do crime organizado nas instituições do Estado brasileiro, operada sobretudo por meio da corrupção do sistema financeiro e da advocacia. Dois esquemas centrais estruturam essa análise.
O primeiro é a Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Receita Federal em conjunto com o GAECO do Ministério Público de São Paulo. A operação representou um marco no enfrentamento à macrocorrupção e à lavagem de dinheiro, ao atingir diretamente a espinha dorsal financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), desarticulando mecanismos que operavam sob a forma de fundos de investimento exclusivos e instituições de pagamento digital. O relatório destaca ainda a Instrução Normativa nº 2.278 da Receita Federal, que corrigiu lacunas regulatórias exploradas por grupos criminosos, e avalia os limites e potencialidades da abordagem de inteligência financeira no enfrentamento ao crime organizado.
O segundo episódio central é o caso Banco Master, classificado no relatório como a maior fraude bancária da história brasileira, com estimativa de prejuízo superior a R$ 50 bilhões. O caso revelou indícios de captura regulatória e levantou graves questionamentos sobre conflitos de interesse no mais alto escalão do Poder Judiciário, incluindo contratos milionários entre o banco investigado e escritórios de advocacia vinculados a ministros do Supremo Tribunal Federal.
Poder Executivo
A análise do Poder Executivo abrange cinco eixos temáticos: (1) o balanço entre avanços e lacunas na transparência do governo federal, incluindo a agenda de Governo Aberto e o uso de sigilos administrativos; (2) ações de controle e investigações relevantes; (3) os desdobramentos da Operação Carbono Oculto; (4) contradições na política climática e ambiental e a preparação do Brasil para a COP30, com análise da Operação Rejeito; e (5) o esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), descrito como o maior golpe previdenciário da história brasileira, com movimentações suspeitas superiores a R$ 4,5 bilhões em contas de escritórios de advocacia.
O relatório também examina o enfraquecimento e a captura política de agências regulatórias estratégicas, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Agência Nacional de Mineração (ANM), e documenta o silêncio reiterado da Presidência da República sobre a pauta anticorrupção ao longo do ano.
Poder Judiciário
A seção dedicada ao Judiciário registra onze temas, com ênfase nos processos do Supremo Tribunal Federal relativos ao 8 de Janeiro, à pandemia e ao caso Collor; nas decisões sobre emendas parlamentares; nos desdobramentos da chamada “farra das leniências”, com anulações em massa de acordos e condenações por macrocorrupção; nos casos de conflito de interesses e lobby judicial envolvendo ministros do STF; e nos esquemas de venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça.
O relatório dedica atenção especial à condução da investigação do caso Banco Master pelo ministro Dias Toffoli — com avocação atípica do caso, decretação de sigilo máximo, ingerência investigativa e uma série de revelações sobre vínculos patrimoniais e societários dos familiares do ministro com o banco investigado e com a JBS. Da mesma forma, analisa o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da família do ministro Alexandre de Moraes, e o posterior desdobramento que atingiu o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. A seção também aborda a baixa representatividade e as desigualdades estruturais no Judiciário, além das transições e renovações nos tribunais superiores.
Poder Legislativo
A análise do Legislativo cobre onze temas, entre os quais: os novos capítulos do “Orçamento Secreto” e os persistentes esforços para manter baixos níveis de transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares; a PEC da Blindagem, rejeitada por unanimidade na CCJ do Senado após pressão pública; as mudanças nas regras do foro privilegiado; as revelações e fracassos da CPI das Bets; os ataques à Lei da Ficha Limpa e propostas de novo Código Eleitoral; a aprovação pelo Senado do PL Antifacção; a aprovação na Câmara da ratificação do Acordo de Escazú; os casos de infiltração do crime organizado no Legislativo; os avanços lentos da reforma administrativa; o lobby pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas; e a documentação de ataques misóginos e casos de nepotismo em Tribunais de Contas.
Recomendações
O relatório apresenta recomendações técnicas e institucionais endereçadas ao Governo Federal, ao Congresso Nacional e ao Sistema de Justiça. As recomendações cobrem temas como transparência orçamentária, inteligência financeira anticorrupção, integridade em nomeações para altos cargos, controles em programas de investimento público, renegociação de acordos de leniência, cumprimento de convenções internacionais, aprimoramento do Estatuto da Advocacia, investigação e responsabilização de magistrados envolvidos em desvios, e prevenção de conflitos de interesse em tribunais superiores.
Propósito e público
A Retrospectiva Brasil 2025 é um instrumento de referência para jornalistas, pesquisadores, organizações da sociedade civil, tomadores de decisão e demais interessados em compreender como a corrupção continua a moldar — e a desafiar — as instituições brasileiras. O relatório não guarda relação causal com o resultado do Índice de Percepção da Corrupção e deve ser lido como documento analítico autônomo, cujas interpretações, seleções de fatos e conclusões refletem exclusivamente a avaliação técnica da Transparência Internacional – Brasil.