Lavagem de dinheiro e crimes ambientais: Transparência Internacional capacita agentes públicos em cursos on line

Organização realizou dois cursos para capacitar agentes públicos no combate à lavagem de dinheiro associada a crimes ambientais na Amazônia
O tráfico de fauna silvestre é uma das maneiras pelas quais os criminosos se apossam de bens comuns e lucram de maneira ilegal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em setembro de 2026, a Transparência Internacional – Brasil realizou dois cursos para fortalecer a atuação de agentes públicos no enfrentamento à lavagem de dinheiro associada a crimes ambientais. As formações, abertas a profissionais do sistema de justiça, do sistema antilavagem e de órgãos ambientais, agropecuários e minerários, reuniram especialistas de instituições como o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e a Receita Federal.

No total, os cursos contaram com 178 participantes, que representaram os nove Estados da Amazônia, São Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal.

Por que conectar lavagem de ativos e crimes ambientais?

Crimes como o garimpo ilegal, a exploração ilegal de madeira, a grilagem de terras e o tráfico de fauna silvestre não ocorrem de forma isolada. Com frequência estão ligados a organizações criminosas e a esquemas de corrupção, que operam e lucram com a ocultação e a inserção dos recursos obtidos de maneira criminosa – como madeira, ouro, animais silvestres – na economia formal.  

Essas organizações dependem de estruturas financeiras para dar aparência de legalidade ao que foi obtido ilegalmente: ouro extraído sem autorização, madeira esquentada com documentos falsos, terras griladas que são transferidas, animais silvestres traficados e gado de origem irregular que chega aos frigoríficos.  

Por isso, os dois cursos adotaram uma abordagem antilavagem: em vez de olhar somente para o dano ambiental, eles acompanham o caminho do dinheiro, identificando os fluxos financeiros que sustentam esses crimes, para prevenir, detectar, investigar e responsabilizar quem lucra com a destruição.  

Os cursos foram organizados pela Transparência Internacional-Brasil, com apoio da Freeland Brasil e do Bureau of International Narcotics and Law Enforcement Affairs (INL), órgão do governo dos Estados Unidos. 

Os cursos olharam para o caminho do dinheiro, identificando os fluxos financeiros que sustentam os crimes ambientais. Foto: Reprodução

Visão sistêmica entre crimes ambientais, corrupção e lavagem de ativos

O primeiro curso foi voltado a agentes públicos do sistema antilavagem, do sistema de justiça e de órgãos e entidades ambientais, agropecuárias e minerárias. Foram dez aulas, divididas em dois dias. Três das aulas foram dedicadas a estudos de caso, cujo objetivo foi dar aos participantes uma visão integrada entre crimes ambientais, corrupção, organizações criminosas e lavagem de ativos.  

A programação percorreu as principais cadeias de crimes ambientais na Amazônia. No primeiro dia, o procurador Daniel Azeredo (MPF) abordou crimes ambientais, organizações criminosas e corrupção na região; Dário Cardoso, da Transparência Internacional – Brasil, apresentou diferentes tipos de lavagem de ativos associadas aos crimes ambientais. Vivian Calderoni, do Instituto Igarapé, e Juliana Ferreira, da Freeland Brasil, discutiram, respectivamente, a lavagem de ativos na pecuária e no tráfico de animais silvestres. Galtiênio Paulino (MPF) tratou da grilagem de terras e trouxe detalhes de um trabalho que investigou juízes e desembargadores envolvidos neste tipo de crime – a Operação Faroeste. 

No segundo dia, Daniel Lobo (MPF) discutiu o “esquentamento” de madeira e a lavagem de bens e valores à luz da Operação Floresta Virtual. A delegada Ana Gabriela Becker, da Polícia Federal, apresentou a Operação Bird Box, sobre lavagem de valores e crimes financeiros internacionais ligados ao tráfico de animais silvestres. André Porreca (MPF) tratou do garimpo ilegal e da lavagem de ouro, e André Morbeck, do Coaf, apresentou a inteligência financeira como ferramenta estratégica contra os crimes ambientais. Frederico Castello, da Receita Federal, encerrou o primeiro curso descrevendo as fraudes fiscais estruturadas existentes no setor aurífero. 

Aulas práticas de investigação financeira

O segundo curso teve caráter mais operacional e foi dirigido a agentes da Polícia Federal, das Polícias Civis, do COAF e da Receita Federal. Em comum, são profissionais que atuam no monitoramento, fiscalização, inteligência ou investigação de lavagem de dinheiro e crimes ambientais.  

Em quatro aulas, os participantes trabalharam tipologias, meios de investigação e o uso de ferramentas como a notícia-crime e os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs).  

O ex-agente da Polícia Federal André Lovatti conduziu a aula sobre tipologias e meios de investigação, e o policial federal Bruno Cavalcanti Teixeira mostrou como avançar em investigações financeiras com base em notícias-crime e RIFs. No segundo dia, a formação foi eminentemente prática: Marcos Valério, da Polícia Federal, coordenou a simulação de uma investigação sobre garimpo ilegal ou desmatamento, e André Lovatti conduziu a simulação de abertura de inquérito policial com o uso de medidas de análise financeira em um caso hipotético.

 

Os garimpos ilegais existentes na Amazônia são mantidos por redes criminosas muito capitalizadas e bastante profissionais. Foto: Felipe Werneck/Ibama

Ampliando o enfrentamento a crimes ambientais

Pesquisador do Programa de Integridade Socioambiental da Transparência Internacional – Brasil, Dário Cardoso afirmou que identificar a relação entre lavagem de ativos e crimes ambientais permite acessar um arcabouço legal e jurídico mais amplo que pode ser utilizado para enfrentar os ilícitos relacionados ao meio ambiente.  

“O debate ocorrido nos cursos foi além da Lei de Crimes Ambientais e demonstrou como esses crimes estão conectados com a lavagem de ativos, que não se limita apenas à lavagem de dinheiro. O ‘esquentamento’ de madeira com créditos florestais falsos, por exemplo, é também um crime de lavagem de ativos, pois a madeira é um bem público de alto valor no mercado. Essa perspectiva é muito relevante”, explicou o especialista.  

A relação entre a agenda anticorrupção e os crimes ambientais

Nos últimos anos, a Transparência Internacional – Brasil tem atuado fortemente na relação entre corrupção e crimes ambientais.  

Nesse sentido, a organização tem contribuído com as discussões da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro – ENCCLA, para incluir neste debate os ativos ambientais como ouro, madeira e fauna silvestre. Desde o ano passado, em conjunto com o Instituto Centro de Vida (ICV), a organização publica o Índice de Democracia Ambiental (IDA), que mostra como os Estados amazônicos promovem os direitos ambientais. A instituição tem também mobilizado atores sociais pela aprovação, no Congresso Nacional, do Acordo de Escazú. 

Fazem parte ainda deste trabalho a articulação com Tribunais de Contas dos Estados da Amazônia, para que esses órgãos se engajem no combate ao desmatamento; e a luta em prol da transparência dos dados ambientais nos níveis estadual e federal. 

A produção de conhecimento também é outro front deste trabalho. Em 2021, o relatório Governança fundiária frágil, fraude e corrupção: um terreno fértil para a grilagem de terras investigou como a corrupção possibilita a grilagem de terras na Amazônia e A Lavanderia de Fauna Silvestre: como riscos de fraude, corrupção e lavagem viabilizam o tráfico de vida silvestre, lançado em 2024, identificou e mapeou as práticas de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro existentes no tráfico de animais.   

Para acompanhar novas atividades de capacitação oferecidas pela Transparência Internacional – Brasil, acesse http://transparencialinternacional.org.br/cursos/ ou escreva para conhecimento@br.transparency.org.  

Durante o curso, a representante da organização não-governamental Freeland Brasil, Juliana Ferreira, falou dos lucros milionários que existem hoje no tráfico de animais. Foto: Reprodução
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