A Transparência Internacional – Brasil considera um importante avanço a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que acolheu questões centrais apresentadas pela organização como amicus curiae na ADI 7.791 e determinou à União, sob coordenação do Ministério da Fazenda, a revisão, em 90 dias, de aspectos do arcabouço regulatório, da governança e dos mecanismos de supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A decisão reconhece um ponto fundamental levantado pela TI Brasil: os problemas revelados pelo caso Banco Master vão muito além das limitações de orçamento e pessoal da CVM. Envolvem fragilidades regulatórias, de governança, controles internos e tratamento de denúncias. Entre os fatos mais graves está o arquivamento, ainda em 2022, de denúncia que continha informações detalhadas sobre irregularidades posteriormente identificadas no caso Master.
Os necessários aprimoramentos institucionais e regulatórios, contudo, não substituem a igualmente necessária investigação e responsabilização individual, em âmbito competente, de tomadores de decisão cujas ações ou omissões possam ter permitido ou mesmo contribuído para que a maior fraude bancária da história brasileira se desenvolvesse durante anos, apesar da existência de informações, alertas e denúncias. A correção das falhas sistêmicas deve caminhar lado a lado com a apuração rigorosa das responsabilidades por decisões concretas tomadas ao longo desse período. O caso Master é descrito como a maior fraude bancária da história do país e deixou prejuízos superiores a R$ 60 bilhões ao sistema financeiro.
Também é indispensável assegurar garantias efetivas de independência da CVM e sua blindagem contra interferências políticas e a captura por agentes do próprio mercado regulado, inclusive através da advocacia lobista. Essa preocupação torna-se ainda mais urgente diante das graves revelações publicadas, pelo jornal O Globo, nesta segunda-feira (21). Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Daniel Vorcaro e o advogado Ciro Soares, que atuava como lobista para o Banco Master, discutiram uma articulação política para assegurar a permanência de Otto Lobo na presidência da CVM, após Soares relatar que Lobo havia lhe pedido ajuda para chegar ao senador Otto Alencar. Segundo as mensagens, Vorcaro teria se comprometido a atuar em favor de Lobo.
Fortalecer a CVM exige recursos, melhores regras e governança, mas exige também independência, integridade, transparência e responsabilização. Sem esclarecer como uma fraude dessa magnitude pôde avançar por anos diante de alertas já existentes e sem apurar eventuais responsabilidades individuais, a resposta institucional ao caso Master permanecerá incompleta.