Deflagrada em 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto é considerada a maior investigação já conduzida no país contra o crime organizado. A apuração revelou como o Primeiro Comando da Capital (PCC) expandiu sua atuação, infiltrando-se de forma sistemática na economia formal, em especial no setor de combustíveis e no mercado financeiro paulista, com ramificações diretas na Faria Lima.
Segundo o Ministério Público e autoridades fiscais, o esquema teria gerado cerca de R$ 10 bilhões em importações ilícitas de combustíveis, R$ 52 bilhões em vendas no varejo por meio de mais de mil postos e R$ 46 bilhões em transações realizadas por fintechs clandestinas, que operavam como bancos paralelos entre 2020 e 2024. A investigação também identificou dezenas de fundos de investimento fechados e outras estruturas financeiras que concentravam aproximadamente R$ 30 bilhões em ativos utilizados para lavar e reinserir recursos ilícitos na economia, incluindo usinas de etanol, terminal portuário, imóveis e uma frota nacional de caminhões.
Esses valores eram direcionados a fundos de investimento e convertidos em participações societárias e ativos legítimos. Mais de 40 fundos passaram a ser investigados, alguns com patrimônio avaliado em dezenas de bilhões de reais. A divulgação oficial dos alvos e de empresas que cooperaram com as autoridades provocou forte reação do mercado, com destaque para a Reag Investimentos S.A., cujas ações caíram mais de 15% em um único dia, acompanhadas da retirada de centenas de milhões de reais por investidores.
A Operação Carbono Oculto alcançou mais de 350 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, investigados por crimes contra a ordem econômica, lavagem de dinheiro, fraude fiscal, adulteração de combustíveis e crimes ambientais. Empresários apontados como centrais no esquema têm negociado acordos de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo, com potencial para atingir agentes públicos mediante a apresentação de provas de propinas e favorecimentos regulatórios no setor de combustíveis.
Outro desdobramento relevante da operação foi a publicação, por parte da Receita Federal, da Instrução Normativa RFB nº 2.278/2025. A normativa estabeleceu medidas específicas para o fortalecimento do combate aos crimes contra a ordem tributária, abrangendo condutas associadas ao crime organizado, com ênfase em esquemas de lavagem de dinheiro e fraudes. Entre seus principais dispositivos, determinou que instituições de pagamento (fintechs) passem a se submeter às mesmas normas e obrigações acessórias aplicáveis às instituições financeiras do Sistema Financeiro Nacional e do Sistema de Pagamentos Brasileiro, especialmente quanto à apresentação da e-Financeira. A instrução também reforçou o dever de comunicação de indícios de crimes às autoridades competentes, nos termos da regulamentação vigente, ampliando o alcance e a capacidade de fiscalização da Receita Federal.
Também como resposta às revelações de fraudes e desvios no setor de combustíveis, especialmente o envolvimento da refinaria Refit com o Comando Vermelho, o Congresso Nacional, depois de anos de discussão, aprovou o PL do Devedor Contumaz.
As revelações e os desdobramentos da Operação Carbono Oculto evidenciaram que o crime organizado no Brasil se tornou um risco estrutural à integridade empresarial, demandando a elaboração e adoção de novas estratégias de gestão de riscos, governança e due dilligence. Não por acaso, pesquisa conduzida em dezembro de 2025 pela Transparência Internacional – Brasil em parceria com o Datafolha empresas do país percebem o avanço do crime organizado como uma ameaça crescente à integridade empresarial. Ainda assim, apenas 57% afirmaram que as empresas com as quais se relacionam dispõem de controles específicos para mitigar esse risco.