Marcha Contra a Corrupção: 20 anos de luta e fiscalização cidadã no Piauí

Mobilização organizada pela Força-Tarefa Popular chega à 20ª edição percorrendo seis cidades e 150 quilômetros
Com exceção do período da pandemia, desde 2002, todos os anos, os ativistas do Piauí participam da Marcha Contra a Corrupção, pelo Clima e a Vida. Foto: Luís Madaleno/Transparência Internacional - Brasil

Quando os primeiros passos se colocarem em marcha no interior do Piauí na sexta-feira (15), os participantes deste movimento estarão fazendo história: será a saída da Marcha Contra Corrupção, pelo Clima e a Vida, que este ano celebra duas décadas de mobilização contra a corrupção e pelo bom uso dos recursos públicos.

Criada no estado do Piauí em 2002, a Marcha é organizada pela Força-Tarefa Popular (FTP), um movimento social que luta pela transparência e controle democrático dos recursos públicos naquele Estado. Ao longo dos anos, a Marcha já percorreu 97 cidades do Piauí, Ceará, Goiás e chegou a ir a Brasília, no Distrito Federal. São mais de 4 mil quilômetros percorridos a pé por cidadãos, estudantes, lideranças comunitárias e ativistas ao longo desses anos.

Em 2026, a Marcha passa pelas cidades de São João do Arraial, Matias Olímpio, Campo Largo do Piauí, Porto, Miguel Alves e União. O trajeto tem início na sexta-feira, 15 de maio, e vai até o dia 30 deste mês. O encerramento ocorrerá com uma audiência pública que celebrará os 20 anos da mobilização, com participação de autoridades, como prefeitos da região e representantes de Tribunais de Conta do Estado (TCE) e da União (TCU) (veja mais detalhes da programação no site oficial da Força-Tarefa Popular).

O tema da Marcha para este ano é: ‘Democracia municipal – fiscalizando o plano de governo local. Eleição passou, agora é hora de fiscalizar o que foi prometido’.

Durante a marcha, os participantes visitam obras, participam de agendas com autoridades e realizam reuniões de formação nas cidades por onde passam. Foto: Divulgação/Força-Tarefa Popular

Vistoria em obras, auditorias públicas e rodas de conversa

A Marcha Contra Corrupção e pela Vida não é apenas um ato de mobilização – é uma ferramenta de controle social. Durante o trajeto, os participantes fiscalizam e fazem ‘auditorias cívicas’ em obras e serviços públicos, realizam aulas de cidadania, reuniões com prefeitos e vereadores e entregam relatórios para autoridades e órgãos de controle sobre o que foi encontrado. A programação inclui também rodas de conversa e atividades educativas em escolas.

Entram em questão obras abandonadas, serviços públicos não entregues e outras irregularidades. Além disso, como parte da programação da Marcha, são realizados cursos para controladores sociais e de fortalecimento de conselhos municipais.

A Marcha tornou-se, assim, um instrumento de controle social democrático, promovendo a fiscalização de gastos públicos e conscientização sobre a importância do monitoramento de políticas públicas.

O idealizador da marcha, o advogado Arimateia Dantas, dá uma palestra em uma escola durante a edição 2025 da Marcha. Foto: Luís Madaleno/Transparência Internacional-Brasil

Mobilização popular coleciona resultados

Com o passar dos anos, a Marcha foi conquistando resultados concretos. Um exemplo vem do ano passado: uma inspeção realizada no bairro Vila Maria, em União (PI), documentou esgoto a céu aberto, obras de saneamento inacabadas e risco direto à saúde de moradores, incluindo condições propícias à proliferação do mosquito transmissor da dengue.

O relatório técnico produzido pela FTP foi encaminhado ao Ministério Público do Estado do Piauí, que instaurou procedimento administrativo (Portaria 68/2025) e fixou prazo de um ano para que a prefeitura concluísse as obras de esgotamento sanitário na região. O caso expôs ainda uma discrepância relevante: o município declarava 96% de cobertura de esgoto, enquanto a realidade encontrada em campo apontava um sistema em situação crítica.

Outro exemplo vem da cidade de Miguel Alves (PI), onde a fiscalização da Marcha identificou um lixão a céu aberto com impactos diretos à saúde da população e ao meio ambiente. Após a passagem da Marcha e denúncia da FTP, a prefeitura realizou intervenções no local, como o cercamento da área, instalação de sinalização e remoção de entulhos. No âmbito estadual, o Tribunal de Contas do Estado do Piauí publicou a Instrução Normativa nº 2, de junho de 2025, estabelecendo a obrigatoriedade de medidas para a gestão adequada de resíduos sólidos pelos municípios.

Marcha mobiliza autoridades e órgãos de controle

Além dos órgãos de controle, a mobilização também acontece em parceria com a sociedade. Em uma das fiscalizações, os marchantes verificaram que as obras de uma creche em Porto (PI) estavam paralisadas. Após a vistoria da Marcha e a pressão pública feita em conjunto com outras organizações, as obras foram aceleradas, e a creche foi inaugurada e entregue à população.

A Marcha trabalha com o método de ir a campo, documentar as evidências e encaminhar as denúncias às instâncias de controle competentes. Outras organizações se somam à mobilização: o Ministério Público do Piauí, por exemplo, articula promotorias para acompanhar e apoiar a Marcha e receber os relatórios de auditoria cívica; e o curso de formação de controladores sociais é fruto de parceria formal da FTP com o Tribunal de Contas do Estado.

Ao longo dos anos, os participantes da marcha já percorreram 4 mil quilômetros e visitaram 97 cidades. Foto: Divulgação/Força-Tarefa Popular

Planos de governos serão ponto de partida das cobranças

Coordenador da Força-Tarefa Popular e idealizador da marcha, o advogado Arimateia Dantas contou que a novidade da mobilização para este ano é a fiscalização dos planos de governo dos prefeitos eleitos nas cidades que serão visitadas: “Pegamos os planos que foram registrados em cartórios com todas as promessas feitas por esses gestores. Eles disseram que iriam melhorar a vida do povo. Nós vamos fazer um checklist e vamos cobrar as obras que devem ou deveriam estar prontas”.

Arimateia contou que os integrantes da FTP têm refletido sobre a importância da persistência na luta e sobre os 20 anos da Marcha. “Somos um exemplo de determinação e consistência. São vinte anos caminhando em prol da democracia direta nas cidades do Piauí, é importante festejar isso”, contou o coordenador.

Para a gerente do Centro de Apoio e Incidência Anticorrupção da Transparência Internacional – Brasil, Nicole Verillo, o marco merece reconhecimento: “Quando a FTP realizou sua primeira Marcha, a pauta anticorrupção ainda não havia sido transformada em arma eleitoral. Mais de duas décadas depois, enquanto o debate público nacional se perdeu na polarização, a Força-Tarefa Popular continuou fazendo o que sempre fez: caminhar pelo interior do Piauí, verificar se a obra existe, se a UBS foi construída, se a escola funciona, se a água chegou. Isso é combate à corrupção. Não como slogan, mas como garantia de que o recurso público cumpre sua função: chegar a quem mais precisa e assegurar direitos. É cidadania exercida a pé, município por município”.

Conheça o trabalho da Força-Tarefa Popular. Acompanhe a programação da Marcha a partir do dia 15 de maio!

A Marcha Contra a Corrupção, pelo Clima e a Vida reúne cidadãos, ativistas, lideranças comunitárias, pesquisadores e estudantes. Foto: Luís Madaleno/Transparência Internacional – Brasil

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