8 de março e o papel das mulheres na agenda anticorrupção 

Estudos mostram que a participação feminina na vida pública está ligada a menores níveis de corrupção
Há estudos mostrando que existem diferenças na maneira como homens e mulheres percebem, vivenciam e toleram a corrupção. Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil

O 8 de março é uma data para refletir sobre o papel e a importância da igualdade entre homens e mulheres nas diferentes áreas de nossa vida em sociedade.  

Na agenda anticorrupção, não é diferente: embora haja muitas perguntas a serem feitas e poucas respostas consolidadas – os primeiros estudos sobre essa interseção são relativamente novos e existem desde 2001 – já existem dados que ilustram como os diferentes aspectos do combate à corrupção influenciam e são influenciados por questões de gênero.  

A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, já indicou que em alguns estados da América Latina o déficit de denúncias de corrupção tem a ver com discriminação de gênero – ou seja, a pouca presença das mulheres em altos cargos. 

A Transparência Internacional é uma das organizações que estuda a interação entre gênero e corrupção. Em 2018, a organização publicou Mainstreaming gender and human rights in anti-corruption programming’ (“Integrando gênero e Direitos Humanos em programas anticorrupção”, em tradução livre) em que buscou relacionar à agenda anticorrupção à agenda de Direitos Humanos.  

Abaixo vão algumas das ideias que constam no documento, que mostram teorias e fatos que vêm aparecendo em diversos estudos:  

  • Existem evidências de que entender as relações de poder sob a ótica de gênero e desigualdades pode melhorar a governança de ações anticorrupção; 
  • Há estudos mostrando que há diferenças na maneira como homens e mulheres percebem, vivenciam e toleram a corrupção; 
  • De maneira geral, a probabilidade de que mulheres paguem propinas é menor; 
  • A participação das mulheres na vida pública está ligada a menores níveis de corrupção em diversos países do mundo;  
  • A corrupção dificulta a participação das mulheres em altos cargos na política e nos negócios; 
  • O impacto da corrupção é muito influenciado pelo gênero. Devido aos desequilíbrios de poder e aos diferentes papéis de gênero na sociedade, as mulheres são frequentemente mais vulneráveis à corrupção e enfrentam maiores riscos de corrupção em certos setores, como a prestação de serviços;  
  • Ainda faltam informações sobre formas de corrupção associadas a gênero, como o “sextortion” – que é quando alguém ameaça compartilhar imagens ou mensagens íntimas de outra pessoa para obter dinheiro ou favores sexuais. 

Em 2020, ‘Gender sensitivity in corruption reporting and whistleblowing’ (“Questões de gênero no registro e denúncias de corrupção”, em tradução livre) investigou a diferença entre homens e mulheres quando eles e elas faziam denúncias de corrupção. O Barômetro Global da Corrupção 2019 – América Latina e Caribe, por exemplo, mostrou que as mulheres fazem menos denúncias que os homens – entre outros motivos, porque elas percebem que sua denúncia não é levada a sério e porque acreditam que as denúncias têm pouca chance de provocar mudanças e impactos reais.  

Por isso, os autores do estudo compilam algumas boas práticas que comprovadamente aumentam as denúncias feitas por mulheres: garantia de anonimidade; políticas claras de não-retaliação em empresas e organizações; a possibilidade de fazer ou registrar a denúncia com uma atendente mulher; e a possibilidade de trabalho conjunto com organizações da sociedade civil que lutam pelos direitos femininos. 

Mulheres se preocupam mais com gastos sociais e prestação de serviços

Em 2024, ‘The impacts of corruption on women and their role in preventing corruption’ (“Os impactos da corrupção nas mulheres e seu papel na prevenção da corrupção”) quis mostrar, entre outras coisas, como a corrupção atinge as meninas e mulheres nos serviços de saúde e no acesso à justiça – e que papel cabe a elas na prevenção e no combate à corrupção.  

Este documento provou que, em determinados contextos, quando as mulheres são eleitas para cargos eletivos, elas são mais hábeis para desfazer as redes que perpetuam corrupção política e que sim, sua presença em gabinetes, por todo o mundo, está relacionada a menores níveis de corrupção. As causas disso não estão tão claras – e tem a ver também com a exclusão de mulheres de rodas e grupos formados essencialmente por homens – e vêm sendo objeto de pesquisa mundo afora.  

Estudos mostram que as mulheres são mais confiáveis e se preocupam mais com o bem-estar dos outros. Além disso, quando eleitas e exercendo mandatos, elas se preocupam mais com gastos sociais e com a prestação de serviços à comunidade.  

A presença das mulheres altera dinâmicas de poder

Para a coordenadora de Governança e Integridade Pública da Transparência Internacional – Brasil, Amanda Faria Lima, a presença de mulheres comprometidas com a luta por direitos na agenda anticorrupção é importante pela possibilidade de alterar as dinâmicas de poder que existem hoje em nossa sociedade – ainda muito machistas, marcadas pelos “clubes de meninos” que se encontram e definem as coisas em espaços reservados, como clubes e jantares.    

“Ter mulheres em cargos de alto nível abre uma porta para que outros métodos e prioridades sejam adotados nas instituições. As mulheres comprometidas com a igualdade e justiça social podem ajudar a redefinir prioridades orçamentárias, por exemplo, destinando mais recursos para a defesa de direitos humanos e justiça econômica. Elas trazem olhares diferenciados, que ajudam a colocar outras perspectivas em questão”, disse a coordenadora. 

Amanda lembrou também que existem dados mostrando que países em que as mulheres ocupam cargos públicos mostram redução nos níveis de corrupção percebida: “Essa informação deixa claro que a presença das mulheres em cargos e posições de liderança, e em ações de combate à corrupção, é uma ferramenta comprovada de desenvolvimento social e eficiência nas instituições”. 

Grupo de Trabalho

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