Qual a relação entre racismo e corrupção?

A luta contra a corrupção deve ser entendida como um caminho para a conquista de direitos.

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Por *Gerson Camargo

No Brasil, o racismo estrutural é causador de desigualdades e supressão de direitos. Além de excluir a população negra de espaços de poder (apenas 9,95% das cadeiras legislativas municipais foram ocupadas por pessoas pretas nas eleições de 2020), causa seu extermínio pela violência e marginalização (segundo o Atlas da Violência 2021, a chance de um brasileiro negro ser assassinado é 2,6 vezes superior a uma pessoa não negra).

Neste cenário, a corrupção, outra grande causadora de desigualdades, impacta desproporcionalmente mais pessoas negras. O casamento entre o racismo estrutural e a corrupção se materializa, por exemplo, nos recorrentes episódios de violência policial pelo país. São justamente as pessoas negras, maioria populacional nas regiões mais pobres das cidades, que mais sofrem com o abuso de poder — raiz de todas as formas de corrupção.

Por isso, discriminação e corrupção, que frequentemente são entendidos como temas apartados um do outro, caminham lado a lado e representam um dos principais obstáculos para a justiça social. Devem, portanto, ser enfrentados de forma sistêmica e integrada.

O combate sistêmico ao racismo e à corrupção é urgente para construirmos uma sociedade mais justa e digna para todos.

Nomeando o problema: corrupção discriminatória

A Transparência Internacional, em parceria com a organização Equal Rights Trust, divulgou neste ano o estudo “Defying Exclusion: Stories and insights on the links between discrimination and corruption”, que apontou como a discriminação, independente da forma como ela aconteça, permite e potencializa a corrupção, alimentando um ciclo vicioso que aprofunda a desigualdade social.

Ao tratar sobre o tema, o estudo chegou à definição de corrupção discriminatória depois de ouvir relatos de diversas comunidades em vários países que sofrem na pele os efeitos da discriminação potencializados por práticas corruptas. Foram ouvidos desde a comunidade negra no Reino Unido a mulheres em Madagascar, assim como jovens em Papua Nova Guiné e grupos indígenas na Guatemala.

Entre as conclusões, foi identificado que as pessoas que enfrentam discriminação são mais afetadas pelos efeitos nocivos de práticas corruptas e que algumas dessas práticas podem ser inerentemente discriminatórias.

Ao mesmo tempo, o estudo mostrou que esses grupos alvos de discriminação, quando tentam fazer denúncias sobre as injustiças sofridas, se deparam com mais barreiras de corrupção no sistema policial e judicial, ocasionando, assim, que os crimes dos quais são vítimas fiquem por diversas vezes impunes.

A saída é a luta por direitos

Por potencializar os efeitos da discriminação na sociedade, a corrupção impede um mundo com mais justiça social. Daí a importância de compreendermos que a luta contra a corrupção é um caminho, não um fim em si mesma.

Caminho para que os direitos de todas as pessoas sejam respeitados, independentemente de sua raça, gênero, orientação sexual, religião, origem social, ou qualquer outra condição que se torne alvo de discriminação.

Outro ponto fundamental, a exemplo da metodologia do estudo citado acima, é ouvir as pessoas que sofrem na pele a violência causada pelo preconceito e exclusão, buscando junto com elas a construção de caminhos de enfrentamento a esse problema.

Não há verdadeiro enfrentamento da corrupção enquanto pessoas forem discriminadas por sua cor ou qualquer outra condição física ou social. A luta contra a corrupção é uma luta por direitos. E, por isso mesmo, também é uma luta contra o racismo.

Gerson Camargo é colaborador na Transparência Internacional - Brasil, fazendo parte da equipe de Comunicação da organização.

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