Em pelo menos duas ocasiões, episódios graves de misoginia chamaram atenção em audiências do Congresso Nacional, ambos envolvendo a ministra Marina Silva. Em maio de 2025, a ministra foi alvo de ataques e ofensas por parte de senadores durante uma audiência pública na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado. O senador amazonense Plínio Valério (PSDB-AM) declarou que “a mulher merece respeito; a ministra, não”, numa fala que rapidamente foi classificada como misógina, e o presidente da comissão, senador Marcos Rogério (PL-RO), instruiu a ministra a “se pôr no seu lugar”. Marina Silva abandonou a audiência, afirmando que os ataques eram um desrespeito tanto à sua função quanto ao fato de ser mulher. Ambos os senadores têm interesse na liberação de projetos de infraestrutura e na flexibilização de leis ambientais, pauta que vai de encontro às posições da ministra.
Pouco tempo depois, em julho, a ministra voltou a enfrentar hostilidades durante audiência na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados. Parlamentares, incluindo o deputado Evair de Melo (PP-ES), da bancada ruralista, fizeram comparações descabidas entre a ministra e grupos armados, como as Farc e o Hamas, além de repetirem declarações que a associam a um câncer, ecoando ofensas anteriores. Outro deputado, Cabo Gilberto (PL-PB), adotou um tom paternalista ao pedir que ela “se acalmasse”, postura rebatida pela ministra durante a sessão.
Os episódios provocaram forte reação institucional e política. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, divulgaram notas e vídeos nas redes sociais. Elas repudiaram os ataques, classificando-os como ofensivos, misóginos e incompatíveis com o decoro parlamentar, além de reafirmarem solidariedade a Marina Silva enquanto mulher, ministra e figura pública. A primeira-dama, Janja Lula da Silva, também se manifestou, ex pressando indignação pelo desrespeito e ressaltando a importância do trabalho da ministra no combate ao desmatamento.
No caso da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a ministra é vista por parlamentares do Norte, pela bancada do petróleo e por setores do governo como a principal responsável pela resistência do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente à concessão de licenças. O mesmo padrão aparece no debate sobre o “Projeto de Lei da Devastação”, defendido por ruralistas, empreiteiras e governadores como forma de supostamente destravar obras. Marina Silva e sua equipe se posicionaram contra dispositivos que flexibilizam licenças, reduzem os estudos de impacto e limitam o poder de órgãos ambientais. Outro ponto de interesse diz respeito à BR-319, estrada que liga Manaus a Porto Velho. A ministra defende condicionantes rigorosos e medidas de controle para evitar uma explosão do desmatamento na região, enquanto parlamentares do Amazonas e de Rondônia pressionam pela liberação rápida das obras.