Durante anos ouvi explicações técnicas para déficits bilionários em fundos de pensão: “conjuntura”, crises, oscilações de mercado. Sempre havia um termo sofisticado para justificar o sofrimento real de quem paga essa conta.
Mas déficits não caem do céu. Têm origem, decisões e responsáveis.
As investigações sobre aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master reacendem uma memória dolorosa. Segundo a imprensa, a Polícia Federal apura operações de cerca de R$ 3 bilhões, com mudanças de comando e indícios de favorecimento incompatíveis com o interesse público.
Para quem viveu o caso da FUNCEF, isso não é novidade. Vimos dirigentes saírem em camburões na Operação Greenfield. Naquele momento, não pedíamos vingança — queríamos verdade. Queríamos entender como recursos de uma vida inteira viraram déficits que até hoje pesam sobre aposentados e trabalhadores.

Os anos passaram e a reparação não veio. Em vez disso, decisões recentes aprofundam a injustiça: a suspensão, pelo ministro Toffoli, da multa de R$ 10 bilhões da J&F prevista em seu acordo de leniência e a decisão de primeira instância que anulou cláusulas e determinou o recálculo do valor por suposta “onerosidade excessiva”. Medidas que impactam gravemente a restituição de perdas sofridas por fundos e participantes.
Enquanto processos são lentos, os descontos são imediatos. O impacto vai além dos números: atinge a saúde, a dignidade e a estabilidade de milhares de famílias. Déficits são apresentados em cifras bilionárias, mas produzem vítimas humanas — que não podem ser invisibilizadas, nem silenciadas nos processos de responsabilização e reparação.
Há algo profundamente injusto em retirar segurança de quem já entregou ao país seu trabalho e sua vida. No caso dos economiários da CAIXA, ajudamos a construir políticas públicas, crédito, habitação e inclusão financeira. Esse legado não desaparece com a aposentadoria.
Fundos de pensão são instrumentos de proteção coletiva. Garantem estabilidade, reduzem pressão sobre a previdência pública e asseguram envelhecimento digno. Quando capturados por má gestão ou interesses externos, o dano é social — destrói confiança.
E confiança não se recupera com discursos.
As investigações sobre o Rioprevidência são importantes porque iluminam decisões. É nelas que começam muitas tragédias previdenciárias. Por isso, transparência, fiscalização e responsabilização não são perseguição — são defesa da sociedade.
Quem contribuiu por décadas não pode ser condenado a pagar eternamente por erros que não cometeu.
Nenhuma democracia amadurece quando seus trabalhadores envelhecem sob medo.
Continuarei defendendo o que nunca deveria ter sido negado: verdade, respeito, justiça e dignidade.
Porque déficits bilionários não são fenômenos da natureza. São escolhas humanas — e seus efeitos também recaem sobre vidas humanas.