Quando a concorrência pelo poder é enfraquecida e a influência sobre as políticas não é transparente, as autoridades públicas podem acabar sendo capturadas por interesses privados. Por isso, um sistema sólido de freios e contrapesos voltado para o controle do poder é crucial na defesa da democracia e na prevenção à corrupção.
Alguns de seus componentes incluem: Legislativos que fiscalizem o orçamento público, cortes independentes capazes de rever decisões do governo, instituições de auditoria com acesso a dados, e órgãos eleitorais que façam cumprir normas democráticas. Quando essas salvaguardas são suprimidas, a voz da população pode ser abafada pelos interesses dos endinheirados e bem relacionados. Tal cenário cria maiores oportunidades para práticas de corrupção, e afastam as políticas públicas do bem comum.
Nossa pesquisa sugere que países que contam com instituições fiscalizadoras mais fortes e com eleições livres e imparciais tendem a demonstrar maior resiliência contra os riscos de corrupção. Em particular, além da transparência, é necessário impor limites máximos aos financiadores de partidos políticos e às quantias gastas nas campanhas eleitorais, no intuito de proteger a democracia contra a influência indevida.
Em conjunto com isso, a transparência acerca de quais pessoas estão fazendo lobby com políticos é essencial para evitar que conflitos de interesses impeçam as políticas públicas de atender aos interesses da população.
Quando líderes e seus influentes comparsas conseguem driblar os sistemas de freios e contrapesos, ou até neutralizar e aparelhar instituições e políticas estatais para servir a seus interesses, abrem-se as portas para a pilhagem dos recursos públicos. Na esteira desse processo, o abuso do poder de alto nível – conhecido como “grande corrupção” – não demora para se transformar numa captura geral do Estado. Tal cenário não raro vem acompanhado de um período de deterioração da administração pública, das instituições de justiça e do processo democrático, bem como da supressão dos direitos humanos. Esses desdobramentos normalmente possuem dimensões internacionais, incluindo lavagem transnacional de bens desviados.
Os Estados Unidos e sua pior nota no IPC
O clima político nos Estados Unidos vem se deteriorando há mais de uma década e, em 2025, o país obteve sua pior pontuação histórica no IPC. Embora os dados ainda não reflitam completamente os desdobramentos de 2025, o uso de cargos públicos para perseguir e limitar vozes independentes, como as de ONGs e jornalistas, bem como a normalização da política polarizada e transacional, a politização de decisões penais, e ações que ameaçam a independência judiciária, entre diversos outros exemplos, passam a perigosa mensagem de que práticas de corrupção são aceitáveis.
A França dá exemplo com responsabilização de alto nível
A condenação do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy é um exemplo raro, porém importante, de accountability de alto nível para sanar falhas na integridade política europeia. Em setembro de 2025, um tribunal de Paris sentenciou Sarkozy a cinco anos de prisão por formação de quadrilha num esquema que teria envolvido milhões de euros em fundos ilícitos fornecidos pelo falecido líder líbio Muammar Gaddafi. O recurso será julgado em março de 2026. Em novembro de 2025, foram decretadas uma nova condenação e uma nova sentença, de um ano em cárcere, relativas ao financiamento ilegal da sua campanha de reeleição em 2012, na qual o ex-presidente teria gasto o dobro do limite permitido por lei.
Emirados Árabes Unidos: as contradições do combate à corrupção num governo autoritário
Embora os Emirados Árabes Unidos disponham de certas proteções efetivas contra a corrupção, que passam pela aplicação enérgica de normas e pela atuação de alguns órgãos de fiscalização robustos, os problemas referentes à democracia estão criando sérios riscos de corrupção. A abordagem anticorrupção do governo autoritário do país, aplicada do topo para a base, é insustentável. Além disso, pessoas com conexões políticas conseguem influenciar políticas públicas e licitações, valendo-se da falta de transparência nas decisões do governo.
Como se não bastasse, os Emirados Árabes funcionam como um centro financeiro pouco regulado, o que facilita o abuso do poder em outros países – os envolvidos em grandes esquemas de corrupção aproveitam para investir seus ganhos ilícitos no estrangeiro e, com isso, escapar à justiça. Diversas figuras polêmicas – como Isabel dos Santos, que há muito vem sendo acusada por autoridades angolanas de ter desviado ativos do Estado na época em que seu pai era presidente do país – já se valeram dessa facilidade ofertada pelos Emirados Árabes.